Diploma

Era uma sexta-feira qualquer quando fui buscar meu diploma. Uma sexta-feira de verão, como todas as outras (meio que canadense, mas verão). O caminho até o campus é longo. Vou de ônibus, escutado uma música qualquer no meu player, enquanto meu cérebro termina de acordar.

Até que chego ao campus. De repente bate aquele sentimento de saudade misturado com nostalgia (se isso não for redundante), como se fosse a última vez que estivesse passando por ali.

Começo então a observar os detalhe que durante anos passaram desapercebidos, as árvores como cresceram, os prédios como mudaram. As pessoas continuam as mesmas, embora diferentes.

Dois dias antes, saíra a lista dos aprovados no vestibular. Consigo já imaginar aquele campus na primeira semana de aula, quando estará infestado de rostos novos, cheios de esperança e grandes perspectivas. Consigo imaginar inclusive aqueles que juram ser diferentes, únicos, alternativos, mal sabem eles que não passam de uma perpetuação da espécie. Da espécie deles, é claro.

Mas se tem algo em comum entre todos eles, é o grito gultural estampado em suas faces: “ca-lou-ro”. Fato, é claro, que só se percebe quando se é veterano. Mas imagino mais. Imagino até um calouro desses sentado ao meu lado no ônibus, indo para o mesmo destino que o meu, mas com objetivos diametralmente opostos. Depois dizem que a vida não nos reserva particularidades.

Sigo meu caminho ao DERCA (Depto. de Registro e Controle Acadêmico), meu destino final. Propositalmente ou não, para se ir ao DERCA, é necessário cruzar todo o campus — igual como para se comprar pão ou carne, se cruza todo o mercado. E isso me faz pensar que todos aqueles meus pensamentos foram premeditados, pré-calculados por alguém. Decerto não, ou prefiro pensar que não, mas nessas horas, teoria da conspiração não falha.

Chego ao DERCA, prédio da reitoria, terceiro piso, saindo do elevador, corredor à direita, sala 325. A sala é conhecida minha de longa data, poderia descrevê-la se necessário, já estive lá algumas dúzias de vezes. Mas o que a difere de outras salas é apenas seu jardim embaixo da janela. “Jardim” segundo a Tia do Derca, porque para mim está mais para uma concentração de sapos de todas as cores e tamanhos (de cerâmica, obviamente, mas sapos!)

Uma vez observei, segundo minhas contas, pode-se contar no mínino quatro sapos a cada metro de “jardim”. E eu que pensava que sapos eram criaturas inúteis desprezadas pelos universo.

A Tia do Derca também é minha conhecida — “tia”, uma forma carinhosa de chamar pessoas a quem se deve respeito e admiração. Afeto que aprendi ainda na pré-escola –, mas nosso relacionamento é no mínimo curioso. Eu a conheço, mas nem sei seu nome, já para ela, eu sou apenas mais um dentre os mais de 20 mil alunos matriculados regularmente na UFSM, mas toda vez que eu vou lá, me chama pelo nome. De alguma forma, me sinto orgulhoso por isso.

Então a Tia do Derca, que embora funcionária pública, muito simpática e prestativa, prontamente me atende. Aquilo que para mim era um momento, único, impar e singular — porque afinal, não é todo dia que se busca um diploma na universidade –, para ela era apenas mais uma rotina que se repete milhares e milhares de vezes a cada semestre.

Dá uma olhada no meu histórico, confere meu diploma, imprime o recibo, eu assino os dois últimos, e ela me entrega então um envelope de papel pardo escrito meu nome com uma caligrafia digna de médico, juntamente com meu histórico e diploma e, enquanto arquiva o recibo, me informa, a pedido, que a taxa outrora cobrada para a retirada do diploma fora suspensa há cerca de um mês.

Então por um momento fico ali a contemplar a situação. Cinco anos de estudo por um pedaço de papel couché com um brasão da república, algumas dúzias de palavras, três assinaturas (incluindo a minha) e alguns carimbos no verso. E tudo na conta do Governo!

Eu poderia aqui estender um pouco mais e fazer uma reflexão sobre o papel do Estado na sociedade, mas não, não há tempo para isso.

Tomo meu rumo de volta, feliz da vida. Como criancinha quando recebe presente novo, quer mostrar para todo mundo. Vou até o ponto-final (do ônibus), ou ponto-de-partida, como preferir, afinal, é tudo uma questão de ponto-de-vista. Coloco o fone-de-ouvido e minha mente borbulha de pensamentos. Desde os mais simples, buscando um elo de ligação entre o calouro, a Tia do Derca e eu, até uns um pouco mais complexos e obscuros que procuram entender o que aquela folha de papel que carrego debaixo do braço dentro do envelope de papel pardo agora representaria para mim além de novas preocupações, novas responsabilidade e até mesmo novos compromisso a pagar. (E me refiro aqui aos 230 reais referentes ao pagamento da anuidade Corecon relativo ao exercício de 2008)

Embarco no ônibus e dessa vez me proponho a observar mais minunciosamente os detalhes para poder afirmar com toda a certeza quando um dia retornar: “Ah, mas como mudou! Na minha época era diferente. Tudo era mais verde. As pessoas conversavam uma com as outras”.

O shuffle do meu player, mui amigavelmente, escolhe “Yesterday” como trilha sonora de despedida. “Yesterday” não a dos Beatles, a do Switchfoot, uma bandinha californiana de bem menor expressão. E naquele momento paira sobre mim uma sensação de “está consumado”, ou uma mistura de “it’s done” com “it’s over”.

Até que chego no portal de entrada/saída do campus, e ali leio, de uma maneira como nunca tinha lido antes, aquela frase que durante muitas vezes eu repetira sem ter idéia do tamanho do seu significado. Tudo pára. Se eu suspeitava que todos aqueles meus pesamentos, de alguma forma, eram premeditados, agora eu tinha certeza. Jostein Gaarder estava me mandando cartas, ou melhor, recados.

E então, de repente, aquele sentimento de ‘está consumado’ se converte em um elo entre um ciclo e outro. Aquilo que é para ser o fim de uma era, é, ao mesmo tempo, início de outra. Como um ciclo. Ou, como aquele ponto-de-ônibus em frente ao Derca que é ao mesmo tempo ponto-final e ponto-de-partida. Melhor, como as fases de um jogo de video-game, mas este, sem chefão, cuja a única certeza que você tem é que, o finalizar de uma fase, nada mais é que o início de outra, na qual para se passar, será necessário utlizar todo conhecimento, habilidades e manhas obtidas ao longo das outras fases anteriores.

Acordo relendo a frase que fizera aquele turbilhão de pensamentos passar em minha mente em uma fração de segundos. Tudo volta ao normal. Afinal, Fernando Pessoa tinha razão, “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.

E dentre tantas sensações por mim experimentadas ali na universidade, muitas das quais nos últimos minutos, me despeço com uma ainda inédita. Algo como “don’t worry, everything is gonna be alright”.

Deixo o campus então levando comigo conhecimentos, experiências e um diploma. Minha mente, agora um pouco mais calma, ainda trabalha. Mas desta vez pensando como passar tudo aquilo que acabei de presenciar para um folha de papel. Uma folha de papel qualquer, como todas as outras. Como a do diploma, por exemplo.

// Este post, embora publicado só agora, foi escrito na semana após eu buscar meu diploma. Alguns elementos fictícios foram adicionados por questões, digamos, poéticas. Mas a concentração de sapos existe. Eu deveria ter tirado foto.

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2 responses to “Diploma

  1. Luís!!!
    Isto me lembra algo… hehehe!!!
    Bj

  2. Quando fui pegar meu diploma, junto com toda a nostalgia, meus lábios expressaram: “é verdade…. quatro anos representados em um pedaço de papel!”

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